
Em tempos de crescente preocupação com a humanização da assistência médica, constato infelizmente, que está cada vez mais difícil e demorado se estabelecer adequada relação de confiança, respeito e entrega recíproca com as pacientes com câncer de mama.
Estamos em época de segunda opinião, de processos contra médicos, de dificuldades financeiras para os honorários, de convênios mal intencionados e de pacientes apressadas, que chegam até a querer que o médico solicite seus exames por fax, que o laboratório os entregue no consultório e que o médico lhes telefone para passar os resultados. E porque não dizer, também, de colegas não-especializados e despreparados.
Para complicar ainda mais a questão, a relação hoje não é mais médico-paciente, e, sim, médico-participantes do processo da doença. Alguns destes costumam vir acompanhar o atendimento, o que em princípio é bom. Outros não vêm, mas telefonam para obter um resumo com os "melhores momentos" da consulta, ou confrontar os conhecimentos do médico com os seus, recém adquiridos na Internet.
Imagino que, muitas vezes, a decisão sobre qual médico vai operar a mãe da família seja decidida em plebiscito domiciliar, em que todos opinam, e no qual a vontade da maior interessada, fragilizada, nem sempre seja devidamente levada em consideração.
Lendo o livro "Gestão de Clínicas Médicas", editado por M. Scarpi, que recomendo para todos que têm consultório ou clínica, deparei-me com objetiva caracterização de perfil dos participantes do processo de decisão das clientes, que é mais ou menos assim:
Acrescentaria, ainda, o Sugeridor e o Alternativo. Muitos querem, com boa intenção colaborar, compartilhar os momentos de angústia, e julgam-se no dever de apresentar sugestões, como nomes de outros médicos e serviços, inclusive de outras cidades, estratagemas para aproveitar melhor os convênios ou obter redução nos custos. E, em quase toda a família, existe um membro que é contra a medicina tradicional, e que tem certeza de que melhor seriam florais, cogumelos, própolis ou banhos especiais.
Impossível agradar a todos.
Infelizmente, temos que nos adaptar a esta dinâmica comum na sociedade atual. Bom senso e paciência são essenciais para exercer com sucesso nossa profissão, que depende de vínculos de confiança e afeto.
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