2016

NOTA OFICIAL sobre a necessidade da realização de mamografia anual

 A Sociedade Brasileira de Mastologia, à luz do conhecimento atual, continua com seu papel de informar a população sobre a necessidade da realização de mamografia anualmente, a partir dos 40 anos de idade. Existem controvérsias sobre a eficácia do método, sobre a idade da população que deve realizar o rastreamento, produção de tratamentos excessivos e se a radiação da mamografia sobre as mamas podem induzir ao câncer de mama. Nenhum outro exame da área médica tem sido tão debatido quanto a mamografia nos últimos anos.

Os estudos que analisam os resultados dos rastreamentos populacionais que ocorreram em vários países demonstram claramente uma diminuição da mortalidade por câncer de mama nestas populações e mostram a evidência de que a mamografia, apesar de ainda não ser o método diagnóstico ideal que consiga revelar todas as lesões cancerosas iniciais ou pré-cancerosas, é o que temos de melhor em eficácia, acessibilidade e custo baixo para alcançar a diminuição de mortalidade por câncer de mama.

Um estudo de rastreamento realizado nos Estados Unidos, entre 1973 e 1981, mostrou que de 3548 cânceres de mama detectados, 1375 (39%) casos foram detectados apenas pela mamografia e 257 (7%) apenas pelo exame físico. Para os casos detectados apenas pela mamografia a sobrevida global em 20 anos foi de 85% enquanto que para os casos não submetidos ao rastreamento foi de 53%.

Outro exemplo de eficácia do rastreamento mamográfico do câncer de mama pode ser comprovado por recente artigo científico publicado em 02/11/2016 pela Sociedade Europeia de Imagem da Mama (EUSOBI) em associação com entidades de radiologistas de 30 países europeus em que fica bem demonstrado que, de acordo com a Agência Internacional para Pesquisa do Câncer, a mortalidade por câncer de mama é reduzida em 40% para mulheres entre 50 a 69 anos que fizeram mamografia como também foi importante entre as mulheres de 40 a 49 anos e acima de 70 anos.

Além de reduzir a mortalidade por câncer de mama, o rastreamento mamográfico, diagnosticando cânceres iniciais, colabora no aumento da possibilidade de se praticar intervenções com resultados estéticos muito mais agradáveis do que procedimentos radicais com perda da mama e necessidade de novas cirurgias reparadoras. Além disso, quando o tumor é descoberto tardamente, pode existir a maior probabilidade de acometimento axilar, o que acarreta no esvaziamento linfonodal causando além da deformidade estética, dano motor ao membro superior afetado, como também aumento das taxas de linfedema do braço, trazendo transtornos eternos à paciente.

Um dos fatores que leva o oncologista a indicar a necessidade de quimioterapia e radioterapia é o tamanho tumoral, sendo que a grande maioria dos tumores com um centímetro ou menos não necessitarão de quimioterapia, radioterapia, tratamentos com grandes efeitos colaterais e sequelas para toda a vida, além de custos financeiros cada vez mais proibitivos.

Quanto a idade de início do rastreamento em mulheres de baixo risco para câncer de mama, fica claro que a realidade do câncer de mama nos países em desenvolvimento, como o Brasil, difere da dos países de primeiro mundo. As pesquisas evidenciam que nos países desenvolvidos, a taxa de casos de câncer de mama nas mulheres entre os 40 e 50 anos gira entre 10 a 15%, enquanto que nos países em desenvolvimento esta taxa é de mais de 30%. Portanto, se excluirmos esta população de mulheres entre 40 e 49 anos dos programas de rastreamento mamográfico, estaremos retirando a chance destas pacientes de terem seus cânceres de mama diagnosticados precocemente. Os tumores malignos de mama são mais agressivos quanto mais jovem é a paciente.

Em relação ao risco de indução de câncer mamário por radiação emitida em cada mamografia e recebida pelas mamas durante o tempo em que as mulheres fazem mamografia é calculado por modelos matemáticos. A dose de radiação recebida por cada mama em um exame de mamografia não deve exceder 0,2 cGy e o risco de câncer de mama rádio induzido é estimado em 1 caso em cada 100.00 mulheres rastreadas entre os 50 e 69 anos, sendo que este câncer pode ser ainda curado. Vale lembrar que o rastreamento mamográfico realizado em 100.000 mulheres salva 350 pacientes de irem a óbito.

O diagnóstico excessivo ou sobrediagnóstico (overdiagnosis) é a descoberta de um câncer de mama com baixo grau de crescimento e que não acarretará a morte da portadora e o tratamento deste tumor seria considerado também um excesso ou sobretratamento (overtreatment). Este estudo já citado e recentemente publicado calcula que a chance de overdiagnosis é de 1 a 10% em 20 anos de rastreamento. O problema é que através dos exames de imagem ou patológicos ou mesmo imunoistoquímicos que existem nos dias atuais, não existe a verdadeira possibilidade de sabermos o real comportamento biológico dos cânceres de mama e assim concluirmos apenas pela análise da imagem mamográfica qual é o tumor que não deverá ser submetido a uma biópsia diagnóstica ou mesmo aquele que não deverá ser extirpado da mama e não tratado.

Com essas considerações, baseadas em evidências científicas robustas e amplamente reproduzidas pelo mundo afora, é que a SBM permanece convicta que o rastreamento mamográfico é o que de melhor podemos oferecer às mulheres nos tempos atuais para minimizar o sofrimento da ocorrência de um câncer de mama e colaborar efetivamente aumentando a sua chance de cura.

Dr. Ruffo de Freitas Junior

Presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia

Dr. José Luís Esteves Francisco

Coordenador da Comissão de Imagem da Mama da SBM