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A adenomastectomia é uma cirurgia que retira a glândula mamária preservando a pele, a aréola e o mamilo da paciente. Também conhecida como mastectomia com preservação de pele e mamilo, ela representa um avanço importante no tratamento e na prevenção do câncer de mama. Neste artigo, vou explicar de forma simples o que é esse procedimento, quem pode fazê-lo e por que ele tem mudado a relação das mulheres com a cirurgia mamária.
Vou conversar com você como se estivéssemos no consultório, sem aquele “medicalês” que mais confunde do que explica.
O que significa a palavra “adenomastectomia”?
Vamos começar quebrando o nome, que assusta só de olhar:
● Adeno = glândula
● Mast = mama
● Ectomia = retirada
Ou seja: trata-se da retirada da glândula mamária, o tecido produtor de leite que fica dentro da mama. A grande sacada dessa cirurgia, porém, é o que ela preserva.
A pele da mama, a aréola e o mamilo permanecem todos no lugar. É como se esvaziássemos uma almofada por dentro, mantendo a capa intacta. Por esse motivo, a cirurgia também é chamada de mastectomia com preservação de pele e mamilo (ou nipple-sparing mastectomy, em inglês).
Por que a adenomastectomia é uma revolução silenciosa?
Por décadas, a palavra “mastectomia” carregou um peso enorme. Ela trazia a imagem de uma mama amputada, uma cicatriz transversal grande e a sensação de perda de feminilidade.
E eu não vou minimizar isso. Mexer com a mama mexe com identidade, com autoestima, com o modo como a mulher se enxerga no espelho.
A adenomastectomia mudou esse cenário de forma significativa. Hoje, conseguimos retirar o tecido doente (ou com alto risco de adoecer) e, na mesma cirurgia, colocar uma prótese ou fazer uma reconstrução com tecido da própria paciente.
O resultado costuma ser bastante diferente do antigo modelo:
● A mama continua “ali”, com volume e contorno preservados.
● A aréola e o mamilo são mantidos.
● A cicatriz fica discreta, geralmente escondida no sulco abaixo da mama ou na borda da aréola.
Quem pode fazer a adenomastectomia?
Existem dois grandes grupos de pacientes que podem se beneficiar deste procedimento. Vou detalhar cada um deles.
1. Mulheres com câncer de mama em estágios iniciais
Nesses casos, o tumor está longe da pele e do mamilo, mas a paciente não tem indicação de fazer uma cirurgia conservadora (a chamada quadrantectomia, em que se retira apenas o “pedaço” doente da mama).
Algumas situações que podem levar a essa indicação:
● Tumor pequeno em uma mama também pequena.
● Múltiplos focos de câncer espalhados pela mama.
● Paciente que já fez radioterapia naquela mama anteriormente.
● Microcalcificações suspeitas e extensas na mamografia.
Sobre as microcalcificações, vale um esclarecimento importante. Elas não são necessariamente câncer. Porém, quando apresentam características suspeitas e ocupam uma área extensa da mama, retirar apenas um pedaço não resolve. Nesses casos, é preciso retirar toda a glândula.
Existem ainda situações em que o câncer está colado na aréola ou na pele. Infelizmente, nesses cenários, a preservação do mamilo não é possível. Por isso, o exame detalhado, o estadiamento correto e uma conversa franca com seu mastologista fazem toda a diferença.
2. Mulheres com alto risco genético
Aqui eu quero chamar sua atenção de verdade. Você já ouviu falar nas mutações BRCA1 e BRCA2?
São alterações genéticas que aumentam muito o risco de câncer de mama e de ovário ao longo da vida. Foi por causa dessa condição que a atriz Angelina Jolie realizou sua cirurgia preventiva em 2013, mudando para sempre a conversa pública sobre o tema.
Para essas mulheres, a adenomastectomia redutora de risco pode diminuir a chance de desenvolver câncer em mais de 90%.
Além disso, é importante saber que BRCA1 e BRCA2 são os mais conhecidos, mas não são os únicos. Outras alterações genéticas também elevam o risco de câncer de mama, como:
● TP53
● PALB2
● CHEK2, entre outras.
Hoje, todas essas mutações podem ser identificadas em painéis genéticos mais amplos, solicitados pelo seu médico quando há histórico familiar relevante.
“Mas então o risco de câncer some?”
Não. E essa é uma honestidade que faço questão de ter com minhas pacientes.
Por mais que a cirurgia retire a maior parte da glândula, é impossível garantir 100% de retirada. Sempre permanece alguma célula glandular microscópica, especialmente perto da pele e do mamilo.
Por esse motivo, mesmo após a cirurgia, essas mulheres continuam fazendo acompanhamento médico regular. O risco cai drasticamente, mas não chega a zero.
“Doutor, se eu já tenho câncer em uma mama, não é melhor tirar as duas?”
Essa pergunta aparece bastante no consultório, e ela faz sentido à primeira vista. No entanto, operar a mama saudável “por garantia” tem consequências que precisam ser cuidadosamente pesadas.
Quando operamos os dois lados em vez de apenas um, alguns pontos importantes entram em jogo:
● Possível atraso no tratamento, caso ocorra alguma complicação cirúrgica.
● Risco de perda da sensibilidade do mamilo nos dois lados.
● Aumento do tempo cirúrgico e da anestesia, o que por si só eleva os riscos.
● Riscos próprios do procedimento dobrados, já que cada mama operada representa uma nova exposição cirúrgica.
Estudos sobre adenomastectomia mostram uma taxa global de complicações de cerca de 22% e uma taxa de necrose do mamilo próxima de 6%. Não se trata, portanto, de uma cirurgia sem risco.
Por isso, fora dos casos com indicação clara, retirar a mama saudável não deixa a paciente mais segura. Apenas adiciona riscos a uma cirurgia que já é grande por si só.
O que levar dessa conversa sobre adenomastectomia
A adenomastectomia simboliza algo maior que está acontecendo na mastologia moderna. Não tratamos mais apenas “o tumor”. Tratamos a mulher inteira: o corpo dela, a história dela, a autoestima dela, o medo dela e os planos dela.
Se você se identificou com alguma das situações descritas neste artigo, agende uma consulta com um mastologista de confiança. Cada caso é único, e somente uma avaliação individualizada pode indicar a melhor conduta para você.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Em caso de dúvidas sobre sua saúde mamária, procure um mastologista.
Sobre o autor
Dr. Thiago Gaspar
Cirurgião geral, mastologista e mestre pela Unicamp. Associado à Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e membro do Departamento de Oncoplastia. Especialista em reconstrução mamária e pesquisa voltada ao alto risco familiar para câncer de mama. Alia técnica cirúrgica avançada a um cuidado individualizado e humanizado, com foco em tratamento, autoestima, prevenção e acompanhamento a longo prazo.
@dr.thiagogaspar · CREMESP 196675 · RQE 124011
Referências
1. Vieira RAC, Paulinelli RR, Hassan AT, Facina G. Oncoplastia mamária: soluções em diferentes cenários clínicos. 1ª ed. Lemar & Goi; 2025.
2. Galimberti V, Vicini E, Corso G, Fontana S, Morigi C, Sacchini V, Veronesi P. Nipple-sparing and skin-sparing mastectomy: review of aims, oncological safety and contraindications. Breast. 2017 Aug;34 Suppl 1:S82–S84. doi:10.1016/j.breast.2017.06.034.
