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Com a participação da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), pesquisa considera que embora a biópsia a vácuo tenha custo maior que a biópsia cirúrgica, o retorno ao longo dos anos é compensador no sistema público de saúde
A biópsia mamária é uma estratégia consagrada para o diagnóstico de câncer de mama. Embora a biópsia assistida a vácuo seja um método menos invasivo e ofereça o benefício de uma recuperação mais rápida, a biópsia cirúrgica, que requer anestesia geral e exige mais tempo para que a paciente retome suas atividades, é realizada com maior frequência por representar custos menos elevados. Diante de dados insuficientes sobre o impacto econômico dos dois procedimentos, um estudo com a participação da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), realizado no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), avalia o custo-benefício da biópsia a vácuo, de forma a nortear políticas públicas nacionais.
O estudo “Análise de minimização de custos da biópsia assistida a vácuo versus biópsia cirúrgica para o diagnóstico de lesões mamárias suspeitas no sistema público de saúde brasileiro” foi publicado pela Clinical Breast Cancer (Elsevier), conceituada revista científica internacional. Sob a coordenação da mastologista Andressa Gonçalves Amorim, a investigação conta com contribuições da SBM e de importantes centros de tratamento de câncer de mama no Brasil.
Como método de biópsia diagnóstica, a mamotomia, ou excisão assistida a vácuo, vem sendo realizada desde 1996. Em uma explicação simplificada, a técnica que utiliza aparelho de ultrassom consiste em retirar através de uma agulha fragmentos da lesão por meio de aspiração. Esses fragmentos são submetidos à análise criteriosa de um patologista para identificar a ocorrência de células cancerígenas ou não. Neste método, a anestesia é local.
A biópsia cirúrgica é uma estratégia usada quando os métodos percutâneos não são suficientes para o diagnóstico. Realizada em centro cirúrgico, com anestesia, a estratégia permite a remoção completa da lesão para análise.
Quando considerado o tempo para a recuperação das pacientes que passam pelos procedimentos, a biópsia assistida a vácuo permite o retorno às atividades em aproximadamente 2 dias. Com a biópsia cirúrgica são 14 dias.
No estudo que envolveu 1.833 pacientes do Hospital da Mulher (antigo Hospital Pérola Byington), unidade pública estadual, 100% SUS, entre 2020 e 2023, a população-alvo incluiu mulheres submetidas à biópsia diagnóstica, devido a anormalidades mamográficas.
Em 1.248 pacientes (68,1%) a opção foi pela biópsia assistida a vácuo; 585 (31,9%) foram submetidas à biópsia cirúrgica. “Os resultados histopatológicos foram semelhantes entre os grupos, ou seja, lesões benignas em 66,4% por biópsia a vácuo, e 66,7% por biópsia cirúrgica, seguidas por lesões precursoras, carcinoma ductal in situ (CDIS) e carcinoma invasivo”, destaca Andressa Amorim.
Na biópsia assistida a vácuo, realizada em regime ambulatorial, foram utilizadas agulhas de calibre 11 ou 8 sob anestesia local, com auxílio de ultrassom ou estereotaxia. A biópsia cirúrgica, como explica a mastologista, caracteriza-se por biópsia excisional aberta, sob anestesia geral, que geralmente requer recursos de centro cirúrgico e internação hospitalar de curta duração.
No contexto de saúde pública, a biópsia assistida a vácuo, segundo Andressa Amorim, representa uma opção mais eficiente do que a biópsia cirúrgica. “Isso tanto do ponto de vista institucional quanto social, apesar dos custos iniciais de reembolso mais elevados”, afirma. Por essa razão, na condução da pesquisa os custos foram avaliados a partir de três perspectivas: do prestador de serviço de saúde (institucional), do financiador público (SUS) e da sociedade.
O custo médio ponderado da estratégia com mamotomia foi de US$ 268,41 por paciente, contra US$ 491,89 na estratégia com biópsia cirúrgica, sob a perspectiva do hospital.
De acordo com o mastologista André Mattar, tesoureiro da SBM, também participante do estudo, a biópsia assistida a vácuo gerou uma economia hospitalar média de US$ 223,48 por paciente quando comparada à biópsia cirúrgica, o que representa redução estimada em 45,4%. “A economia social foi maior: US$ 352,93 por procedimento”, destaca. Na atual estrutura de reembolso do SUS, os custos foram mais elevados para o procedimento a vácuo, correspondendo a US$ 146,16 por paciente.
Para André Mattar, o resultado mais importante da pesquisa considera uma projeção da adoção da biópsia assistida a vácuo ao longo do tempo. O estudo conduziu uma análise simplificada de impacto orçamentário para estimar as potenciais implicações em nível nacional do procedimento no SUS.
Considerando aproximadamente 77 mil novos diagnósticos de câncer de mama anualmente, com 10% das pacientes necessitando de biópsia, três cenários de adoção da biópsia a vácuo foram modelados (25%, 50% e 75%). Nesses contextos, a economia projetada para os hospitais chegou a US$ 1,29 milhão por ano, enquanto os custos incrementais para o SUS atingiram US$ 845.148. Da perspectiva da sociedade, a economia foi estimada em até US$ 2,03 milhões anualmente. Os custos relacionados à implementação, incluindo aquisição de equipamentos e treinamento de pessoal, foram incorporados para fornecer uma avaliação mais realista da adoção em larga escala.
Na visão de André Mattar, esses achados são relevantes para o cenário da saúde no Brasil, onde atrasos no diagnóstico e limitações na capacidade cirúrgica impactam significativamente os desfechos do câncer de mama. “Quando não se tem a opção pela biópsia a vácuo, e o resultado se apresenta como benigno, tem-se a percepção que a operação da paciente na biópsia cirúrgica para se chegar a um diagnóstico acaba sendo um procedimento desnecessário”, pontua.
Com base no estudo, os pesquisadores apontam que os ganhos de eficiência demonstrados com a adoção da biópsia assistida a vácuo podem ajudar a reduzir o substancial acúmulo de diagnósticos de câncer de mama. Do ponto de vista da implementação, o investimento inicial de capital necessário para o equipamento de biópsia a vácuo (US$ 80 mil a US$ 120 mil por unidade) poderia ser compensado por ganhos de eficiência em 12 a 18 meses em centros de alto volume, apoiando a viabilidade econômica da adoção da tecnologia em hospitais de referência em toda a rede do SUS. A análise demonstra a recuperação do custo do equipamento em 2,2 anos com base em investimento inicial de US$ 100 mil para centros que realizam 200 biópsias a vácuo anualmente.
Como conclusão, os autores do estudo consideram que embora a biópsia assistida a vácuo esteja associada a custos diretos de reembolso mais elevados no modelo atual do SUS, o procedimento oferece economias substanciais tanto em nível institucional quanto social, por meio da redução da demanda cirúrgica, tempos de recuperação mais curtos e menores perdas de produtividade. “Os resultados validam a biópsia a vácuo como uma abordagem diagnóstica estrategicamente valiosa e reforçam a necessidade de políticas de reembolso que reflitam melhor o cuidado baseado em valor e a eficiência sistêmica no diagnóstico do câncer de mama na rede pública de saúde”, conclui Andressa Amorim.
