A lipoenxertia na mama é uma técnica cirúrgica que utiliza a própria gordura da paciente para corrigir defeitos, preencher volume ou melhorar o contorno da mama. Por ser feita com material do próprio corpo, é considerada uma opção natural, segura e bem tolerada pelo organismo.

Nos últimos anos, esse procedimento ganhou espaço crescente na oncoplastia mamária — a especialidade que une o tratamento do câncer de mama com resultados estéticos satisfatórios. Ele tem sido especialmente indicado para mulheres que passaram por cirurgia de câncer de mama e desejam recuperar a aparência natural da mama.

O que é a lipoenxertia na mama?
A lipoenxertia — também chamada de enxerto de gordura na mama ou lipofilling — consiste em retirar gordura de uma região do corpo, como abdômen, flancos ou coxas, e reinjetá-la na mama, onde há necessidade de volume ou correção.

Diferente dos implantes de silicone, esse procedimento não usa nenhum material artificial. Todo o processo é feito com tecido da própria paciente, o que reduz o risco de rejeição e oferece resultados mais naturais.

Para que situações é indicada?
A lipoenxertia pode ser indicada para mulheres que desejam ou precisam:
● Corrigir assimetrias ou irregularidades após cirurgias na mama
● Preencher o defeito deixado pela retirada de um tumor
● Melhorar o contorno da mama reconstruída com implante ou retalho
● Tratar cicatrizes e áreas com pele danificada pela radioterapia
● Reconstruir a mama após mastectomia (retirada total da mama)
● Realizar ajustes finos e refinamentos estéticos após outros procedimentos

Como funciona o procedimento de enxerto de gordura na mama?
O procedimento é realizado em centro cirúrgico e acontece em três etapas principais.

1. Coleta da gordura
A gordura é aspirada com uma cânula — uma espécie de vareta — a partir de regiões doadoras como abdômen, flancos ou culotes. A aspiração é feita com baixa pressão, o que preserva as células de gordura e aumenta as chances de sucesso do enxerto.

2. Preparação da gordura
O material coletado passa por um processo de preparação e apenas a gordura purificada é aproveitada, o que garante mais qualidade e segurança ao procedimento.

3. Injeção na mama
A gordura purificada é injetada em pequenas quantidades e em diversas direções dentro da mama. Essa técnica de múltiplas passagens garante que cada célula de gordura tenha contato suficiente com o tecido ao redor para se nutrir e se incorporar.
Injetar grandes volumes em um único ponto seria arriscado: sem circulação suficiente, as células morrem e podem formar nódulos de gordura. Por isso, o procedimento exige precisão e experiência cirúrgica.

A gordura injetada permanece para sempre?
Não totalmente. Uma parte da gordura transferida é reabsorvida naturalmente pelo organismo ao longo do tempo. Em média, cerca de 75% do volume injetado se incorpora de forma definitiva.
Mulheres que realizaram radioterapia podem ter taxas de incorporação diferentes, dependendo das condições do tecido local.
Por esse motivo, quando o procedimento é feito imediatamente após a cirurgia conservadora, o médico injeta uma quantidade maior do que o defeito original — já prevendo essa perda natural.

Lipoenxertia na mama é segura para quem já teve câncer?
Essa é, sem dúvida, a dúvida mais frequente entre as pacientes — e também a mais estudada.
Ao longo dos últimos anos, diversos estudos acompanharam mulheres submetidas à lipoenxertia após o tratamento do câncer de mama. Os resultados foram consistentes: a técnica não aumenta o risco de recorrência (retorno) do câncer de mama.
Pesquisadores brasileiros da Universidade Federal do Rio Grande do Sul foram pioneiros ao avaliar o uso da lipoenxertia imediatamente após a cirurgia conservadora — ou seja, no mesmo ato cirúrgico da retirada do tumor. Os resultados mostraram que o procedimento é seguro, esteticamente satisfatório e não compromete o acompanhamento oncológico das pacientes.
Hoje, a lipoenxertia é reconhecida como uma opção segura e eficaz, tanto para reconstrução imediata quanto para reconstrução tardia da mama, em mulheres com histórico de câncer.

A lipoenxertia compromete a mamografia?
Essa preocupação existiu no passado e é totalmente compreensível.
As alterações que o enxerto de gordura pode causar nas mamografias — como pequenas calcificações ou cistos de gordura — são semelhantes às que ocorrem após qualquer outra cirurgia mamária. Em geral, essas alterações são facilmente identificadas pelo radiologista como benignas.
Estudos confirmam que a lipoenxertia não compromete a qualidade nem a sensibilidade dos exames de imagem utilizados no acompanhamento das pacientes.

Quem pode realizar a lipoenxertia na mama?
A indicação do procedimento depende da avaliação individualizada de cada caso. De forma geral, a lipoenxertia pode ser uma opção para mulheres que:
● Passaram por cirurgia conservadora da mama e têm alteração de contorno ou assimetria
● Tem relação tumor/mama desfavorável e irão passar por cirurgia conservadora da mama
● Foram submetidas à mastectomia e estão em processo de reconstrução mamária
● Têm deformidades após reconstrução com prótese ou retalho
● Apresentam cicatrizes ou sequelas de radioterapia na mama
● Buscam refinamentos estéticos após outros procedimentos mamários
Cada caso deve ser avaliado individualmente por um mastologista com experiência em oncoplastia mamária, considerando o histórico clínico, o tipo de cirurgia e as expectativas da paciente.

Conclusão: a lipoenxertia como parte da recuperação integral da paciente
A lipoenxertia na mama é uma técnica consolidada, segura e versátil. Por utilizar a própria gordura da paciente, evita o uso de materiais artificiais e oferece resultados com aparência natural.
Para mulheres que passaram por cirurgia de câncer de mama, esse recurso vai além da estética: representa uma parte importante da recuperação da autoimagem, da autoestima e da qualidade de vida.
Se você realizou uma cirurgia de mama e tem dúvidas sobre reconstrução ou melhora estética, converse com seu mastologista. Juntos, vocês podem avaliar se a lipoenxertia é a opção mais adequada para o seu caso.

Sobre a autora
Dra. Thais Vicentine Xavier Terra é médica mastologista associada à Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM). Possui formação em Mastologia pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), mestrado em Ciências da Saúde pela UFRGS com foco em reconstrução mamária e fellowship em reconstrução e plástica mamária em Strasbourg, França. Atua na avaliação, tratamento e acompanhamento de doenças mamárias, com especial interesse em oncoplastia e reconstrução da mama.