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O que é o tratamento neoadjuvante?
Chamamos de “neoadjuvante” aquele tratamento que é realizado antes da cirurgia. Este termo é utilizado para diferenciar do tratamento “adjuvante”, que é aquele realizado após o tratamento cirúrgico. A definição da ordem com que estes tratamentos serão realizados deve ser feita com base em diversos critérios e de forma individualizada para cada paciente, como iremos discutir a seguir.
Em se tratando de câncer de mama, na maioria das vezes em que realizamos um tratamento neoadjuvante, a escolha é pela quimioterapia, apesar de também ser possível realizar uma “hormonioterapia neoadjuvante” em casos selecionados. Ou seja, quando realizamos um tratamento antes da cirurgia podemos utilizar remédios quimioterápicos ou remédios que promovem um bloqueio hormonal.
Por que não operar o câncer de mama pela cirurgia?
Um questionamento frequente entre as pacientes é sobre o motivo de não iniciarmos o tratamento para o câncer de mama sempre pela cirurgia. A ansiedade por querer remover logo a lesão da mama é natural e de certa forma até intuitiva, porém a história do tratamento do câncer de mama nos ensinou que em alguns casos essa não é a melhor estratégia.
Para as pacientes com tumores com tamanhos pequenos, sem evidências de doença nas axilas, e especialmente nos subtipos ditos “hormonais”, o mais frequente é de fato iniciar o tratamento com a cirurgia. Muitas destas pacientes não necessitarão de realizar quimioterapia, e o bloqueio hormonal, quando indicado, costuma ser realizado após a cirurgia, com medicamentos tomados por via oral.
Por outro lado, pacientes com características que necessitam de tratamento quimioterápico podem necessitar deste tratamento de forma mais rápida, antes mesmo da cirurgia. Esta situação é a chamada “quimioterapia neoadjuvante”.
Já foi demonstrado que realizar a quimioterapia antes da cirurgia não piora os resultados oncológicos quando comparada com a quimioterapia realizada após a cirurgia. Aliás, conhecimentos mais recentes têm evidenciado que na verdade ela traz benefícios oncológicos, consolidando cada vez mais esta abordagem em casos selecionados.
Vamos avaliar agora algumas vantagens de se iniciar o tratamento pela quimioterapia:
1. Redução do tamanho do tumor
A primeira vantagem e talvez a mais clássica, é que o tratamento medicamentoso pode diminuir a extensão da doença (tanto na mama quanto na axila), diminuindo o porte cirúrgico necessário, e potencialmente permitindo a realização de uma cirurgia menor.
2. Tratamento sistêmico precoce
Ao contrário da cirurgia, que trata apenas o local afetado, os medicamentos tratam o corpo inteiro. Se alguma célula tumoral tiver se “desprendido” da mama, ela será combatida antes que possa se estabelecer em outros órgãos (metástase).
3. Avaliação da resposta tumoral
A terapia neoadjuvante nos dá a oportunidade de avaliar a resposta daquela paciente ao tratamento, com a finalidade de guiar os próximos passos de forma individualizada. Isto significa que uma paciente que apresentou boa resposta pode não necessitar de acréscimo de novos medicamentos após a cirurgia, enquanto que as pacientes nas quais a cirurgia identificou a permanência de células tumorais na mama e/ou axila após o tratamento quimioterápico, podem se beneficiar da adição de novos tratamentos após a cirurgia. É uma forma de tentar adaptar o tratamento, e “dar mais remédio para quem precisa de mais remédio”. Somente a quimioterapia neoadjuvante nos dá a oportunidade de identificar as pacientes cuja doença não respondeu tão bem ao tratamento padrão uma vez que a peça removida na cirurgia nos mostrará como as células daquele tumor se comportaram diante do tratamento, e em caso de uma resposta insatisfatória, poderemos traçar uma nova rota de tratamento.
Ao fazer um tratamento neoadjuvante você já está em tratamento
Se o seu médico recomendou iniciar o processo pelos medicamentos, lembre-se: você já está combatendo a doença desde o primeiro dia. A cirurgia acontecerá no momento cirúrgico mais oportuno e seguro.
A estratégia do tratamento neoadjuvante é muito importante para algumas pacientes, e cada caso é único e deve ser discutido de forma multidisciplinar entre o mastologista, o oncologista e demais equipes envolvidas no cuidado oncológico. Se você tem dúvidas sobre o seu planejamento terapêutico, converse abertamente com o seu médico.
Sobre o autor: Dr. Felipe Marcondes de Oliveira Coelho é médico mastologista, possui graduação em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e é membro titular da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM).
CRM MG: 81925 | RQE: 61675
