Uma breve história
A história dos implantes mamários começa nos anos 1960, quando o silicone líquido era injetado diretamente na mama — com resultados problemáticos e uma série de complicações. A primeira prótese surgiu em 1962 e, desde então, diversas gerações de implantes foram desenvolvidas, cada vez mais seguras e naturais. Hoje contamos com próteses em formatos anatômicos, texturas tecnologicamente avançadas e risco de vazamento significativamente reduzido.

Quem pode fazer a reconstrução com implante?
A maioria das mulheres operadas por câncer de mama pode ser candidata à reconstrução com próteses ou expansores, desde que haja pele e tecido subcutâneo suficientes para cobrir o implante. Os melhores resultados costumam ocorrer em mamas de pequeno a médio volume, com pouca ou nenhuma ptose (queda). Mas bons resultados também são possíveis em mamas maiores e com algum grau de ptose, em casos bem selecionados.

Alguns fatores podem dificultar ou contraindicar a reconstrução:
● Radioterapia prévia ou planejada na região
● Infecção ativa no momento da cirurgia
● Pele insuficiente para cobrir o implante
● Tabagismo, diabetes descompensado, obesidade grave e doenças do colágeno (contraindicações relativas)
A decisão é sempre individualizada, tomada em conjunto pela paciente e pelo cirurgião, com base em uma avaliação detalhada do caso, do estágio da doença e do desejo da paciente.

Tipos de implantes: o que muda entre eles
Os implantes variam em superfície, conteúdo e formato.

Quanto à superfície, podem ser lisos, texturizados (com rugosidade para aderir melhor aos tecidos e reduzir a rotação do implante), microtexturizados, revestidos com poliuretano ou, mais recentemente, com titânio — estes últimos ainda com dados limitados sobre eficácia.

Quanto ao conteúdo, o gel de silicone coesivo é o mais utilizado atualmente. Ele oferece consistência próxima à do tecido natural e, em caso de ruptura, não migra para outras partes do corpo — uma das grandes vantagens em relação aos modelos mais antigos. As próteses salinas, preenchidas com solução fisiológica, permitem ajuste de volume, mas são mais suscetíveis a vazamentos e pouco usadas no Brasil. Já os expansores são preenchidos progressivamente e funcionam como etapa temporária antes da prótese definitiva.

Quanto ao formato, as próteses podem ser redondas — simétricas em todas as direções, com resultados cada vez mais naturais nas reconstruções pré-peitorais — ou anatômicas, em formato de gota, com maior volume na parte inferior, buscando replicar o contorno natural da mama.

Próteses com poliuretano e o BIA-ALCL
As próteses revestidas com espuma de poliuretano foram desenvolvidas para reduzir a contratura capsular — o endurecimento do tecido que se forma naturalmente ao redor do implante e que pode distorcer seu formato. Muitos especialistas as consideram especialmente indicadas para reconstruções pré-peitorais, em que não se utiliza músculo para cobrir a prótese.
Um ponto que merece atenção: nos últimos anos, identificou-se uma associação entre próteses macrotexturizadas e de poliuretano e o BIA-ALCL (linfoma anaplásico de grandes células associado a implantes mamários) — um tipo raro de linfoma, não um câncer de mama. Por conta disso, diversas marcas macrotexturizadas foram retiradas do mercado global. As próteses disponíveis no Brasil hoje são predominantemente redondas e lisas. O BIA-ALCL é raro e tratável quando diagnosticado precocemente — o acompanhamento regular com mastologista é suficiente para monitoramento tranquilo.

Expansores: quando a reconstrução é feita em etapas
Quando há pouca pele disponível após a cirurgia, a reconstrução é realizada em etapas. Na primeira, coloca-se um expansor — um implante especial com válvula que vai sendo preenchido progressivamente com solução fisiológica ao longo de semanas ou meses, “criando” gradualmente espaço e pele suficientes. Na segunda cirurgia, o expansor é substituído pela prótese definitiva. Etapas adicionais podem incluir procedimentos para melhorar a pele, reduzir fibrose e refinar o contorno da mama com enxerto de gordura da própria paciente (lipofilling).
Esse processo é especialmente indicado quando a mama foi retirada sem preservação de pele — como na mastectomia radical — ou quando há risco elevado de necrose dos retalhos cutâneos.
Existe também o expansor definitivo, conhecido como prótese de Becker, que combina uma câmara de gel de silicone com uma câmara ajustável de solução fisiológica. Ele pode ser mantido permanentemente, dispensando uma segunda cirurgia.

Como é escolhido o implante ideal?
Não existe uma prótese universalmente melhor — a melhor é sempre aquela que se adapta às características individuais de cada paciente. Para fazer essa escolha, o cirurgião avalia as medidas da mama, a espessura e elasticidade da pele, o tipo de cirurgia oncológica realizada (com ou sem preservação de pele e do complexo areolomamilar), o biótipo e a postura da paciente, além das suas expectativas quanto ao resultado.

O que esperar no pós-operatório
Como em qualquer cirurgia, a reconstrução com implante pode apresentar complicações. As mais comuns são:

● Infecção:
pode exigir a remoção temporária do implante
● Contratura capsular: endurecimento do tecido ao redor da prótese, causando dor e deformidade
● Animação: movimento involuntário da prótese ao contrair os músculos peitorais
● Seroma: acúmulo de líquido ao redor do implante
● Rippling: ondulações visíveis e palpáveis na superfície da pele
● Deflação ou ruptura: mais comum nas próteses salinas

Estudos mostram que a satisfação é maior quando todas as etapas da reconstrução são concluídas nos primeiros dois anos. Tabagismo, diabetes, obesidade e radioterapia são os principais fatores de risco para resultados insatisfatórios a longo prazo.

Vale destacar: as reconstruções pré-peitorais — em que o implante é posicionado na frente do músculo peitoral, e não por baixo dele — têm mostrado resultados cada vez mais promissores, com menor contratura capsular e maior naturalidade estética. É considerado um dos grandes avanços recentes da cirurgia reconstrutiva mamária.

Conclusão
A reconstrução mamária com implantes é um direito da paciente, e hoje, uma realidade segura e eficaz para a grande maioria das mulheres operadas por câncer de mama. Décadas de evolução científica trouxeram próteses mais avançadas, técnicas mais refinadas e resultados muito mais satisfatórios.

Toda escolha, porém, deve ser feita com informação qualificada e em diálogo aberto com um especialista. Cada caso é único. Cada corpo é único. E cada decisão merece o tempo e o cuidado que ela exige.

Se você está passando por um diagnóstico de câncer de mama ou já realizou tratamento, converse com seu mastologista sobre as opções de reconstrução disponíveis para o seu caso.

Sobre o autor
Dr. Eduardo Carvalho é médico titulado em Mastologia pela Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM). Atua em serviços de referência em câncer de mama nas áreas de cirurgia oncoplástica, reconstrutiva e conservadora da mama, e faz parte do programa de preceptoria de formação de novos mastologistas. Alia técnica cirúrgica de excelência e atualização constante à comunicação humanizada com suas pacientes.