Compartilhe
Se você tem próteses de silicone ou está considerando uma cirurgia de reconstrução ou aumento mamário, é natural que surjam dúvidas sobre a segurança dos implantes. Um tema que tem ganhado destaque nos consultórios de mastologia é o BIA-ALCL (linfoma anaplásico de grandes células associado à prótese mamária), um tipo raro de linfoma associado ao implante de mama.
O que é BIA-ALCL?
O BIA-ALCL é um tipo raro de câncer do sistema imunológico que pode surgir ao redor de implantes mamários. Diferente do câncer de mama tradicional, ele não se origina no tecido mamário, mas sim na cápsula (tecido cicatricial) que se forma ao redor da prótese.
Na prática clínica, é uma condição incomum, mas importante de reconhecer, especialmente em pacientes com implantes de superfície texturizada.
Qual o risco de desenvolver BIA-ALCL?
Estimativas mostram que o risco ao longo da vida para mulheres com implantes texturizados (aqueles com superfície mais rugosa) varia de aproximadamente 1 em 2.200 a 1 em 86.000 casos.
Atualmente, não existe exame capaz de prever quem irá desenvolver a doença.
Quais são os principais sintomas?
Os sintomas costumam aparecer anos após a colocação da prótese, geralmente entre 8 a 10 anos após a cirurgia. Não confundir com o inchaço esperado logo após a cirurgia, que é normal no pós-operatório.
Os principais sinais de alerta incluem:
● Aumento do volume da mama (inchaço)
● Assimetria entre as mamas
● Acúmulo de líquido ao redor da prótese (seroma tardio)
● Dor ou desconforto
● Presença de nódulo na mama ou axila
● Endurecimento da mama
● Alterações na pele (vermelhidão ou rash)
Na prática clínica, o seroma tardio é o achado mais comum.
Se você notar algum desses sintomas, o primeiro passo é manter a calma e agendar uma consulta. É importante lembrar que a maioria dessas alterações não está relacionada ao BIA-ALCL. Na maioria das vezes, o acúmulo de líquido é benigno, mas a investigação é essencial para sua segurança.
Como é feito o diagnóstico e o tratamento?
O diagnóstico do BIA-ALCL começa com avaliação clínica e exames de imagem, como ultrassonografia ou ressonância magnética, que ajudam a identificar líquido ou massas ao redor da prótese.
Caso seja detectada alguma alteração, realiza-se uma punção com agulha para coleta do material, que será analisado por um patologista.
Nesse exame, utilizamos a imuno-histoquímica, que identifica marcadores específicos das células tumorais. O padrão típico do BIA-ALCL é:
● CD30 positivo (CD30+)
● ALK negativo (ALK−)
Esses achados são fundamentais para confirmar ou descartar o diagnóstico.
O BIA-ALCL tem cura? O tratamento é eficaz?
Sim. A boa notícia é que, quando diagnosticado precocemente, o BIA-ALCL tem cura na grande maioria dos casos.
O tratamento principal consiste na retirada cirúrgica do implante associada à remoção completa da cápsula que o envolve (capsulectomia total). Na prática clínica, essa abordagem costuma ser suficiente nos estágios iniciais.
Em situações mais avançadas ou específicas, pode ser necessário complementar o tratamento com quimioterapia, de forma individualizada.
Devo me preocupar com minha prótese?
Se você tem prótese mamária e não apresenta sintomas, não há indicação de retirada preventiva.
O mais importante é manter acompanhamento médico regular, estar atenta a mudanças nas mamas e procurar avaliação especializada ao notar qualquer alteração.
Informação e acompanhamento são fundamentais
A decisão de colocar ou manter um implante deve ser baseada em informação e confiança. Se você já tem próteses, o acompanhamento regular com um mastologista é a melhor forma de garantir que tudo esteja bem.
O BIA-ALCL é uma condição rara, com bom prognóstico quando diagnosticada precocemente. Por isso, estar atenta aos sinais do seu corpo faz toda a diferença.
Se você percebeu qualquer alteração ou tem dúvidas sobre seus implantes, procure um mastologista. A avaliação especializada é o caminho mais seguro.
Sobre a autora: Dra. Anne Dominique Lima é médica mastologista, formada e mestre pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Membro titular da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), integra a Comissão Científica e o Departamento de Cirurgia da SBM. Atua como mastologista no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ), com experiência no diagnóstico e tratamento do câncer de mama, com foco em diagnóstico precoce, cirurgia mamária e cuidado humanizado baseado em evidências.
1. Noels EC, Lapid O, Lindeman JH, Bastiaannet E. Breast implants and the risk of breast cancer: a meta-analysis of cohort studies. Aesthet Surg J. 2015;35:55–62.
2. U.S. Food and Drug Administration. Breast implants: reports of squamous cell carcinoma and various lymphomas in capsule around implants. Available from: https://www.fda.gov/medical-devices/safety-communications/breastimplants-reports-squamous-cell-carcinoma-and-various-lymphomas-capsule-around-implants-fda (accessed 23 Mar 2024).
3. Keech JA Jr, Creech BJ. Anaplastic T-cell lymphoma in proximity to a saline-filled breast implant. Plast Reconstr Surg. 1997;100:554–555.
4. Kitchen SB, Paletta CE, Shehadi SI, Bauer WC. Epithelialization of the lining of a breast implant capsule: possible origins of squamous cell carcinoma associated with a breast implant capsule. Cancer. 1994;73:1449–1452.
5. U.S. Food and Drug Administration. Medical device reports of breast implant-associated anaplastic large cell lymphoma. Available from: https://www.fda.gov/medical-devices/breast-implants/medical-device-reports-breast-implant-associated-anaplastic-large-cell-lymphoma (accessed 23 Mar 2024).
6. Von Fritschen U, Kremer T, Prantl L, Fricke A. Breast implant-associated tumors. Geburtshilfe Frauenheilkd. 2023;83:686–693.
7. Campanale A, Di Napoli A, Ventimiglia M, et al. Chest wall infiltration is a critical prognostic factor in breast implant-associated anaplastic large-cell lymphoma. Eur J Cancer. 2021;148:277–286.
8. Campanale A, Spagnoli A, Lispi L, et al. The crucial role of surgical treatment in BIA-ALCL prognosis in early- and advanced-stage patients. Plast Reconstr Surg. 2020;146:530e–538e.
9. Deapen DM, Hirsch EM, Brody GS. Cancer risk among Los Angeles women with cosmetic breast implants. Plast Reconstr Surg. 2007;119:1987–1992.
10. DeCoster RCM, Clemens MW, Di Napoli AM, et al. Cellular and molecular mechanisms of breast implant-associated anaplastic large cell lymphoma. Plast Reconstr Surg. 2021;147:30e–41e.
11. Doren EL, Miranda RN, Selber JC, et al. U.S. epidemiology of breast implant-associated anaplastic large cell lymphoma. Plast Reconstr Surg. 2017;139:1042–1050.
12. Feldman AL, Harris NL, Stein H, et al. Breast implant-associated anaplastic large cell lymphoma. In: Swerdlow SH, Campo E, Harris NL, et al., editors. WHO classification of tumours of haematopoietic and lymphoid tissues. Lyon: IARC; 2017. p. 421–422.
13. Brondeel S, Rogge F, De Wolf E, et al. EBV-positive diffuse large B-cell lymphoma in association with polyurethane textured breast implants: case report and literature overview. Aesthetic Plast Surg. 2023;47:1274–1278.
14. Oishi N, Brody GS, Ketterling RP, et al. Genetic subtyping of breast implant-associated anaplastic large cell lymphoma. Blood. 2018;132:544–547.
15. De Jong WH, Panagiotakos D, Proykova A, et al. Final opinion on the safety of breast implants in relation to anaplastic large cell lymphoma: report of the scientific committee on health, emerging and environmental risks (SCHEER). Regul Toxicol Pharmacol. 2021;125:104982.
16. Deva AK, Turner SD, Kadin ME, et al. Etiology of breast implant-associated anaplastic large cell lymphoma (BIA-ALCL): current directions in research. Cancers (Basel). 2020;12:3861.
17. Mempin M, Hu H, Vickery K, et al. Gram-negative bacterial lipopolysaccharide promotes tumor cell proliferation in breast implant-associated anaplastic large-cell lymphoma. Cancers (Basel). 2021;13:5298.
18. Hu H, Johani K, Almatroudi A, et al. Bacterial biofilm infection detected in breast implant-associated anaplastic large-cell lymphoma. Plast Reconstr Surg. 2016;137:1659–1669.
19. Walker JN, Hanson BM, Pinkner CL, et al. Insights into the microbiome of breast implants and periprosthetic tissue in breast implant-associated anaplastic large cell lymphoma. Sci Rep. 2019;9:10393.
20. Vets J, Marcelis L, Schepers C, et al. Breast implant-associated EBV-positive diffuse large B-cell lymphoma: an underrecognized entity? Diagn Pathol. 2023;18:52.
21. Rondón-Lagos M, Rangel N, Camargo-Villalba G, et al. Biological and genetic landscape of breast implant-associated anaplastic large cell lymphoma (BIA-ALCL). Eur J Surg Oncol. 2021;47:942–951.
22. Fleming D, Stone J, Tansley P. Spontaneous regression and resolution of breast implant-associated anaplastic large cell lymphoma: implications for research, diagnosis and clinical management. Aesthetic Plast Surg. 2018;42:672–678.
23. Lechner MG, Megiel C, Church CH, et al. Survival signals and targets for therapy in breast implant-associated ALK-negative anaplastic large cell lymphoma. Clin Cancer Res. 2012;18:4549–4559.
