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A cirurgia oncoplástica representa um dos avanços mais importantes no tratamento do câncer de mama nas últimas décadas. Em um único procedimento, ela une duas finalidades essenciais: remover o tumor com segurança e preservar a forma, o volume e a simetria da mama.
Como mastologista, acompanho diariamente a transformação que essa abordagem provoca na vida das pacientes. Afinal, tratar o câncer hoje não significa, necessariamente, abrir mão da identidade corporal.
Neste artigo, você vai entender como a técnica funciona, quais são as principais opções disponíveis e por que o diagnóstico precoce continua sendo o seu maior aliado.
O que é a cirurgia oncoplástica e por que ela importa
A cirurgia oncoplástica combina, em um mesmo ato cirúrgico, dois princípios fundamentais. De um lado, segue as regras da cirurgia oncológica: remoção do tumor com margens adequadas e segurança no controle da doença. De outro, aplica os princípios da cirurgia plástica reconstrutiva, preservando a aparência natural da mama.
Mais do que uma questão estética, essa integração traz benefícios concretos para a saúde global. Estudos mostram que pacientes submetidas a essa abordagem apresentam:
● Melhores índices de qualidade de vida após o tratamento
● Menor impacto psicológico e emocional
● Recuperação física mais positiva
● Maior autoestima e bem-estar a longo prazo
Em outras palavras, cuidar da forma também é cuidar da saúde como um todo.
Como a oncoplastia reconstrói a mama após a retirada do tumor
Quando um tumor é retirado da mama, surge uma falha tridimensional no local. Essa falha pode envolver perda de pele, de tecido glandular e de volume. Sem uma reconstrução planejada, o resultado pode incluir retrações, assimetrias visíveis em relação à outra mama, distorção da aréola e cicatrizes que comprometem o resultado final.
A cirurgia oncoplástica atua exatamente nesse ponto. Por meio de técnicas específicas, o cirurgião redistribui o tecido remanescente, aproveita áreas vizinhas com excesso de pele ou traz tecido de regiões próximas para preencher o defeito. Dessa forma, devolve à mama um contorno o mais próximo possível do natural.
Os retalhos locorregionais: tecido próprio, resultado natural
Entre as técnicas oncoplásticas, os retalhos locorregionais ocupam papel central. Eles utilizam tecido da própria mama ou de áreas imediatamente adjacentes, como a parede lateral do tórax, a região abaixo da mama ou o dorso lateral.
Como esse tecido mantém sua vascularização original durante a transposição, a integração ao novo local é mais segura. Além disso, oferece três vantagens importantes:
● Aparência natural: semelhança de cor, espessura e textura com a pele da mama
● Boa tolerância à radioterapia: quando esta é necessária após a cirurgia
● Recuperação simplificada: geralmente mais rápida do que técnicas mais complexas
A seguir, apresento as quatro principais técnicas que fazem parte desse arsenal terapêutico.
As 4 principais técnicas de retalho na cirurgia oncoplástica
1. Triângulo de Burow
O triângulo de Burow é uma técnica de avanço de tecidos locais aplicada após a retirada parcial do tumor. Após a ressecção, o cirurgião prolonga a incisão lateralmente e realiza uma incisão adicional em formato triangular na região axilar.
O objetivo é eliminar redundâncias de pele e permitir a mobilização do tecido mamário remanescente. A partir dessa abordagem, o cirurgião confecciona retalhos de avanço com a pele e o tecido adjacentes, deslocando-os em direção ao defeito para preenchê-lo.
A retirada do triângulo evita a formação de “orelhas de pele” (pequenas dobras que sobram nas bordas da cicatriz), reduz a tensão nas suturas e favorece a cicatrização. Por isso, é uma técnica especialmente útil em tumores periféricos ou em áreas com maior disponibilidade de tecido.
2. Retalho bilobado
O retalho bilobado é uma técnica de transposição dupla. Ela utiliza dois retalhos de pele adjacentes, conectados por uma base vascular comum.
Funciona da seguinte forma:
● Primeiro retalho (maior): rotacionado para preencher o defeito principal
● Segundo retalho (menor): rotacionado para fechar a área doadora do primeiro
● Defeito final: ainda menor, fechado por sutura simples
Essa distribuição sequencial tem uma finalidade precisa: dividir a tensão cirúrgica entre múltiplos pontos, em vez de concentrá-la em uma única área. Como resultado, a reconstrução fica mais estável, com menor risco de abertura da ferida e menor distorção das estruturas vizinhas.
3. Retalho toracolateral
O retalho toracolateral utiliza pele e tecido subcutâneo da parede lateral do tórax, na região entre a mama e a linha da axila. Sua vascularização vem de pequenos vasos chamados ramos perfurantes, o que garante boa nutrição do tecido transposto.
Essa técnica é particularmente indicada para defeitos nos quadrantes externos da mama. Após a retirada da lesão, o retalho é mobilizado em direção ao centro, preenchendo a área e restaurando o contorno mamário.
Do ponto de vista estético, a cicatriz na área doadora fica posicionada de forma estratégica. Geralmente, ela pode ser facilmente camuflada pela linha do sutiã ou pelas dobras naturais do corpo.
4. Retalho toracoepigástrico
O retalho toracoepigástrico aproveita a pele e o tecido logo abaixo da mama, na transição com a parte superior do abdome. Essa área costuma apresentar excesso de pele e boa elasticidade, especialmente em mulheres que já tiveram filhos ou que apresentam maior volume nessa região.
Em vez de ser desprezado, esse excedente é mobilizado para cima e usado para reconstruir defeitos do polo inferior da mama. A cicatriz fica localizada no sulco inframamário (a dobra natural sob a mama), tornando-se pouco perceptível visualmente.
As principais indicações incluem:
● Defeitos no quadrante inferior da mama
● Mamas de volume médio a grande, com sulco bem definido
● Casos em que o uso de prótese ou retalhos maiores é contraindicado por questões clínicas
O que tudo isso significa para você, paciente
A existência dessas técnicas tem uma implicação direta na sua jornada. O tratamento do câncer de mama, hoje, não precisa significar perda definitiva da forma ou da identidade corporal.
A cirurgia oncoplástica integra, em um mesmo ato, a segurança oncológica (com a remoção adequada do tumor) e o cuidado com o resultado estético. No entanto, para que essas opções sejam viáveis, dois fatores são determinantes:
● Diagnóstico precoce: tumores menores permitem maior preservação de tecido e mais alternativas de reconstrução
● Profissional capacitado: acompanhamento com mastologista que tenha o repertório técnico em cirurgia oncoplástica e saiba indicar a melhor abordagem para cada caso
Por isso, alguns hábitos continuam sendo a base de tudo:
● Mamografia anual a partir dos 40 anos
● Autoexame mensal das mamas
● Acompanhamento clínico regular com mastologista
Quanto mais cedo identificamos a doença, mais possibilidades temos de oferecer um tratamento que cuide tanto da sua saúde quanto da sua integridade física e emocional.
Conclusão: cuidar de você por inteiro
A medicina avançou muito nas últimas décadas, e a cirurgia oncoplástica é uma das provas mais claras desse progresso. Hoje, é possível tratar o câncer de mama com segurança oncológica e, ao mesmo tempo, preservar a forma, a simetria e a confiança da paciente em seu próprio corpo.
Se você tem dúvidas sobre o tratamento do câncer de mama, sente alguma alteração nas mamas ou está em dúvida sobre quando iniciar o rastreamento, agende uma consulta com um mastologista. Esse é o primeiro passo para um cuidado completo, técnico e humano.
Sua saúde merece atenção integral. E quanto antes você buscar orientação especializada, maiores serão as possibilidades de tratamento à sua disposição.
Cirurgião geral, mastologista e mestre pela Unicamp. Associado à Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e membro do Departamento de Oncoplastia. Especialista em reconstrução mamária e pesquisa voltada ao alto risco familiar para câncer de mama. Alia técnica cirúrgica avançada a um cuidado individualizado e humanizado, com foco em tratamento, autoestima, prevenção e acompanhamento a longo prazo.
@dr.thiagogaspar · CREMESP 196675 · RQE 124011
Referências
1. Vieira RAC, Paulinelli RR, Hassan AT, Facina G. Oncoplastia mamária: soluções em diferentes cenários clínicos. 1ª ed. Lemar & Goi; 2025.
2. Diretrizes em Mastologia. Sociedade Brasileira de Mastologia. Versão 2022.
